RIO DE JANEIRO (Reuters) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode descobrir em breve que trocar o presidente da Petrobras (PETR4) não é suficiente para transformar a petroleira estatal no motor de criação e desenvolvimento de empregos que foi durante seus primeiros mandatos, de 2002 a 2010.
Na semana passada, Lula encarregou Magda Chambriard, indicada para ser a nova CEO, de acelerar os investimentos em estaleiros, fábricas de fertilizantes, refinarias e linhas de gás natural para impulsionar a economia brasileira, segundo fontes familiarizadas com as conversas.
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Na sua primeira declaração pública desde que foi nomeada CEO, Chambriard afirmou numa publicação no LinkedIn esta segunda-feira o seu “compromisso com o crescimento contínuo da nossa indústria!”
No entanto, existem fatores muito além da sua força de vontade que podem retardar as coisas, disseram as fontes.
Após um grande escândalo de corrupção revelado em 2014 pela investigação da Operação Lava Jato, foram estabelecidas novas regras de controle sobre as decisões empresariais na Petrobras.
Estes novos processos “diminuem um pouco” o poder do governo, o acionista controlador da empresa, de conduzir a política corporativa como deseja, disse Florival Carvalho, ex-diretor da agência reguladora de petróleo e gás brasileira ANP.
Os novos mecanismos de governança dificultam a aprovação de projetos na Petrobras que não sejam claramente lucrativos, por exemplo, ou a venda de combustível com prejuízo para ajudar o governo a conter a inflação – ambas práticas comuns quando o PT de Lula estava no comando.
“As leis atuais e os estatutos da Petrobras em vigor tornariam um desafio para uma nova administração alterar significativamente a alocação de capital e as políticas de preços de combustíveis”, disseram analistas do Goldman Sachs aos clientes em nota após a mudança de CEO da Petrobras. semana passada.
“Será importante que os investidores monitorizem se algum aspecto da governação irá mudar”, acrescentaram os analistas.
O aumento da supervisão do sector público por organismos independentes também poderá pesar nos esforços de Chambriard para acelerar um plano de investimento de 102 mil milhões de dólares para o período 2024-2028.
Por um lado, poderá encontrar resistência do Tribunal de Contas da União (TCU), que tem competência para investigar negócios do setor público, incluindo contratos da Petrobras.
O TCU interveio neste ano quando a Petrobras tentou viabilizar o funcionamento de duas fábricas de fertilizantes, na Bahia e em Sergipe, por meio de acordo com a Unigel, que anteriormente arrendava as unidades da estatal.
Os sindicatos pressionaram o governo para ajudar a manter as linhas funcionando, mas o tribunal alertou que isso poderia gerar prejuízos para a empresa de até 487 milhões de reais em oito meses.
“Em termos gerais, o TCU e a Petrobras estão em desacordo, brigando há muito tempo”, disse José Augusto Dias de Castro, sócio do TozziniFreire Advogados, um escritório de advocacia no Brasil.
“Um dos grandes desafios do novo presidente da Petrobras será essa diplomacia com o TCU”, completou. “É algo que pode ser um problema, o TCU pode querer começar a olhar todos os contratos com uma lupa.”
As ambições do novo CEO também poderão enfrentar obstáculos por parte da agência ambiental brasileira, Ibama, que possui autoridade de licenciamento independente.
A Petrobras tem demorado a obter licenças do Ibama para explorar seus principais prospectos offshore ao longo da costa norte do Brasil, em uma região chamada Margem Equatorial.
A exploração de uma bacia promissora, a Foz do Amazonas, perto da foz do Rio Amazonas, tem sido especialmente complicada, com o Ibama a exigir estudos sobre o impacto da perfuração nas comunidades indígenas antes de decidir se deve emitir uma licença.
A Petrobras se recusou a realizar os estudos, mas pode não ter muita escolha se quiser prosseguir com o licenciamento, disse a ex-chefe do Ibama, Suely Araujo, hoje coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima.
“A palavra final é do presidente do Ibama, não havendo possibilidade de recurso ao ministro do Meio Ambiente, ou a qualquer ministro, nem mesmo ao presidente da República”, disse Araujo.
Se Lula tentasse pressionar a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a desestabilizar o Ibama, isso poderia prejudicar sua posição no exterior e arriscar um rompimento com Marina, disse o ambientalista Delcio Rodrigues, diretor-executivo do Instituto Climainfo, uma organização sem fins lucrativos.
“Ele está usando o prestígio internacional de Marina… como um dos alicerces de sua política externa”, disse Rodrigues.