Os brasileiros reconhecem os benefícios trazidos pelo Plano Real para a preservação do seu poder de compra e penalizarão nas urnas qualquer governante que adote uma postura negligente em relação à inflação, disse esta sexta-feira o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, em debate sobre os 30 anos da o plano de estabilização realizado na sede do Banco Central, em Brasília.
“Estou absolutamente convencido de que a esmagadora maioria da sociedade brasileira aprendeu os benefícios de manter a inflação sob controle. Isso significa preservar o poder de compra dos salários dos trabalhadores brasileiros, dessas transferências de renda, que ganham cada vez mais importância entre nós”, disse Malan na abertura do debate.
Na sua opinião, “a maioria do eleitorado penalizará nas urnas um governante que tenha uma postura excessivamente leniente e complacente com o comportamento da inflação no Brasil”. Ele avaliou também que, hoje, é difícil imaginar alguém dizendo que vai acabar com o regime de metas de inflação sem apontar o que o substituirá. Uma proposta neste sentido, disse Malan, não teria credibilidade.
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Sobre a questão fiscal, Malan destacou que a Lei de Responsabilidade Fiscal, que completará 24 anos de aprovação pelo Congresso em 2024, tem sido alvo ao longo dos anos de críticas equivocadas: a de que a responsabilidade fiscal não é compatível com a responsabilidade social.
“Eu acho que isso é um erro. É perfeitamente possível equilibrar ao longo do tempo para compatibilizar estes dois objectivos. O que é necessário são duas coisas que devem estar presentes neste debate: a definição clara de prioridades e a avaliação de programas e resultados anteriores. É algo que não temos tradição e precisamos construir, uma prática de avaliação de resultados de programas”, defendeu.
O debate ocorreu durante a 2ª Conferência Anual do BC e contou com a presença de alguns dos ex-presidentes do município nos primeiros anos do Plano. Malan, por exemplo, presidiu a instituição entre setembro de 1993 e janeiro de 1995.
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Pérsio Arida, que esteve à frente do BC entre janeiro de 1995 e junho de 1995, comentou que há uma enorme diferença entre baixar a inflação e mantê-la baixa. Na altura do plano, lembrou, além das questões de política fiscal e monetária, havia um problema de visão do país. E a estabilização monetária permitiu um universo de mudanças rumo a um país mais moderno e competitivo.
Para Arida, antes não teria sido possível fazer um plano deste tipo porque não havia uma liderança política capaz de compreender a dimensão intelectual que a mudança exigiria. Para ele, Fernando Henrique Cardoso, que foi ministro da Fazenda naquele período, teve as duas dimensões e foi fundamental para o seu sucesso.
Arida também destacou a adesão do povo brasileiro ao plano como um elemento importante. “Foi quase um pacto social implícito para apoiar a nova moeda, que foi muito rápido e bem-sucedido.”
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Gustavo Franco, que presidiu o BC de agosto de 1995 até março de 1999, disse no debate que o real era um trabalho coletivo. Ele lembrou de um fato quase desconhecido, quando da criação da URV, que foi a criação de um verdadeiro “call center” para tirar dúvidas da população sobre a medida. “Criamos um call center em BC, mais de 1.000 funcionários atenderam ligações da população para tirar dúvidas. Ninguém nunca mais chamou esta casa de ‘caixa preta’”, disse ele.
Gustavo Loyola, que chefiou a autoridade entre junho de 1995 e agosto de 1997, lembrou que a questão que o manteve acordado quando assumiu foi o sistema financeiro, que sofreu um grande choque com a estabilização.
Foi um momento em que, segundo ele, os bancos públicos federais ficaram claros com profundos desajustes e fontes emergentes de risco fiscal, além de políticas totalmente inadequadas do ponto de vista da regulação bancária. “O BC não tinha autoridade reguladora sobre os bancos públicos federais”, destacou, lembrando que os bancos estaduais financiavam dívidas públicas locais, e que o BC era obrigado a refinanciar esses empréstimos.
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Outra questão foi a dos bancos privados, alguns dos quais com problemas muito graves, como má gestão e até fraude. “Tivemos que intervir em 3 dos 10 maiores bancos brasileiros. Tivemos que improvisar porque o Brasil não tinha uma legislação adequada para lidar com esse problema”, disse.
Não havia, lembrou ele, Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) e o BC não dispunha de instrumentos adequados de intervenção ou disciplina sobre os bancos. Além disso, ainda não existia Fundo Garantidor de Crédito.